Estudo inédito mostra que desmatamento, expansão da soja e redução de chuvas estão afetando gravemente o ciclo das águas em uma das principais bacias hidrográficas do país
A bacia hidrográfica do rio Tocantins registrou uma redução de 35% na vazão mínima de segurança nos últimos 50 anos. O dado alarmante integra um estudo inédito realizado pelo projeto especial “Cerrado – O Elo Sagrado das Águas do Brasil”, da Ambiental Media, com base em informações da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e da plataforma MapBiomas. A pesquisa analisou o comportamento hidrológico de seis grandes bacias brasileiras, incluindo Tocantins, Araguaia, Paraná, Parnaíba, São Francisco e Taquari.
A bacia do Tocantins é a segunda mais afetada pela redução da vazão, perdendo apenas para a bacia do rio São Francisco. A perda de volume mínimo, conhecida como Q90 — que representa o menor volume de água presente no rio em 90% das medições — é associada a fatores como o desmatamento, a redução da pluviosidade e a expansão de atividades agropecuárias, principalmente da soja irrigada.
Entre 1985 e 2022, a área destinada ao cultivo de soja na bacia do Tocantins aumentou 138 vezes, segundo o MapBiomas. A vegetação nativa recuou 22% no mesmo período. Além disso, a região também registrou queda de 23% na média anual de chuvas e aumento de 8% na evapotranspiração potencial, o que significa mais água sendo devolvida à atmosfera, intensificando o estresse hídrico.
Números da crise na bacia do Tocantins:
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Redução de 35% na vazão mínima de segurança (de 1.415 m³/s para 924 m³/s)
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Aumento de 13.765% na produção de soja (de 10.322 ha para 1.431.190 ha)
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Perda de 22% na vegetação nativa (de 22,2 milhões para 17,2 milhões de hectares)
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Queda de 23% na pluviosidade média (de 143,38 mm/ano para 110,57 mm/ano)
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Aumento de 8% na evapotranspiração potencial (de 119,12 mm/ano para 128,46 mm/ano)
Impactos para o país
Coordenado pelo geógrafo Yuri Salmona, doutor em Ciências Florestais e diretor do Instituto Cerrados, o projeto aponta que o Cerrado é fundamental para o abastecimento hídrico do Brasil. O bioma ocupa cerca de 25% do território nacional e abastece oito das doze grandes regiões hidrográficas do país. Sua posição elevada facilita o escoamento das águas que alimentam rios como São Francisco, Xingu, Tapajós e Pantanal.
“O Cerrado tem sido devastado em ritmo acelerado e isso afeta diretamente o volume e a qualidade das águas disponíveis. Estamos colocando em risco os recursos hídricos do país”, alerta Salmona.
Pesquisa acessível para todos
O projeto investiu mais de um ano em análises de dados hidrológicos, climáticos e de uso da terra, utilizando tecnologias avançadas e uma equipe multidisciplinar. Os resultados foram organizados em mapas 3D interativos e painéis gráficos acessíveis, voltados a públicos diversos – de cientistas a agricultores e gestores públicos.
“É comum ver pessoas preocupadas com a conta de água ou com a produção agrícola, mas que não fazem a conexão com o desmatamento do Cerrado. O objetivo do projeto é justamente traduzir dados complexos em uma narrativa clara e impactante, que ajude a sociedade a compreender o elo entre conservação ambiental e qualidade de vida”, afirma Thiago Medaglia, diretor-executivo da Ambiental e idealizador da iniciativa.
Sobre a Ambiental
A Ambiental Media é uma organização brasileira sem fins lucrativos especializada em jornalismo investigativo baseado em ciência e dados. Atua com foco em mudanças climáticas, proteção de biomas e comunidades tradicionais, buscando promover um desenvolvimento sustentável e informado.




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