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Operação Fames-19: entenda em detalhes as investigações que afastaram o governador Wanderlei Barbosa

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Operação Fames-19: entenda em detalhes as investigações que afastaram o governador Wanderlei Barbosa
Ministro do Superior Tribunal da Justiça (STJ) Mauro Campbell Marques. Foto: Divulgação

Esquema teria desviado milhões em recursos destinados a cestas básicas na pandemia; investigação atinge núcleo político, servidores, empresários e parlamentares

O Tocantins vive um dos momentos mais delicados de sua história política. O afastamento do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e da primeira-dama Karynne Sotero, por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), expôs as entranhas de um suposto esquema de corrupção que atravessou diferentes esferas do poder público.

Na quarta-feira (3), a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Fames-19, cumprindo mais de 50 mandados de busca e apreensão em Palmas e no interior. A ofensiva mirou gabinetes de deputados estaduais, repartições do governo e endereços particulares ligados a empresários e servidores. O objetivo foi aprofundar as investigações sobre o desvio de recursos que deveriam socorrer famílias em vulnerabilidade durante a pandemia da Covid-19.

O afastamento de Wanderlei, inicialmente por 180 dias, abriu espaço para a posse interina do vice-governador Laurez Moreira (PSD).


O que está em jogo

A Operação Fames-19 investiga contratos firmados entre 2020 e 2021, período em que o Tocantins, assim como o restante do país, enfrentava os efeitos da pandemia.

O governo estadual anunciou na época a compra de 1,6 milhão de cestas básicas, além do aluguel de caminhões para distribuição em caráter emergencial. No entanto, de acordo com a PF, a execução foi marcada por superfaturamento, entregas parciais e fraudes em licitação.

O valor global dos contratos ultrapassou R$ 97 milhões, com um prejuízo estimado de R$ 73 milhões aos cofres públicos.

“Enquanto milhares de famílias lutavam pela sobrevivência, políticos e empresários teriam transformado a fome em negócio lucrativo”, destacou um dos trechos do despacho do ministro Mauro Campbell, relator do caso no STJ.


O funcionamento do esquema

De acordo com a investigação, a organização criminosa estava estruturada em quatro núcleos de atuação:

1. Núcleo político

No topo estaria Wanderlei Barbosa, à época vice-governador, mas com influência sobre a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas). Ao lado dele, a esposa, Karynne Sotero, que acumulava funções políticas como secretária extraordinária.

O ex-secretário da Setas, José Messias Alves de Araújo, também foi apontado como peça-chave. Deputados estaduais completariam o grupo, destinando emendas parlamentares para a compra das cestas em troca de vantagens indevidas.

2. Núcleo de servidores públicos

Assessores especiais de Wanderlei e funcionários da Setas cuidavam da operacionalização: direcionavam licitações, atestavam falsamente a entrega das cestas e faziam repasses em dinheiro vivo.

Um dos nomes citados é o de Taciano Darcles, assessor próximo ao governador, acusado de centralizar recebimentos e repasses.

3. Núcleo empresarial

Empresas criadas pouco antes da pandemia foram contratadas para fornecer os alimentos. Muitas estavam em nome de laranjas, alguns deles beneficiários de auxílio emergencial. Essas empresas simulavam concorrência e entregavam menos produtos do que o contratado.

4. Núcleo financeiro e de lavagem

A engrenagem financeira incluía saques em espécie, depósitos fracionados e até o uso de boletos para diluir valores. O destino de parte do dinheiro, segundo a PF, foi a construção da Pousada Pedra Canga, em Taquaruçu, empreendimento no nome de Rérison Antônio Castro Leite, filho do governador.

Relatórios apontam que, entre junho de 2022 e julho de 2023, Wanderlei, Rérison e o deputado estadual Léo Barbosa, também filho do governador, injetaram R$ 2,4 milhões no negócio.


Quem são os investigados

A lista de investigados é extensa e atinge o coração da política tocantinense.

Além de Wanderlei e Karynne, foram alvos de mandados:

  • Deputados em exercício: Amélio Cayres, Claudia Lelis, Cleiton Cardoso, Ivory de Lira, Leo Barbosa, Jorge Frederico, Nilton Franco, Olyntho Neto, Valdemar Júnior e Vilmar de Oliveira.

  • Ex-deputados: Amália Santana, Eduardo Siqueira Campos, Issam Saado, Luana Ribeiro, Elenil da Penha, Ricardo Ayres e Valderez Castelo Branco.

A investigação aponta que esses parlamentares tiveram participação ao destinar emendas parlamentares ao programa de cestas básicas.


Contexto político: herança de Carlesse

A decisão do STJ lembra que, no período investigado, o governador era Mauro Carlesse (Agir), afastado em 2021 também sob suspeita de corrupção. Wanderlei, então vice, teria assumido a coordenação da Setas por arranjos políticos.

Apesar de não ser investigado nesta fase, Carlesse é figura central para entender a continuidade de práticas ilícitas entre diferentes gestões.


O que dizem os acusados

As manifestações de defesa seguiram um padrão: respeito às instituições e negação de envolvimento.

  • Wanderlei Barbosa disse que a medida é precipitada, pois os contratos ocorreram quando ele era vice. Reforçou que determinou auditoria interna e promete lutar para reassumir o governo.

  • Karynne Sotero alegou não ter participação nos fatos e confia na Justiça.

  • Deputados afirmaram que sua atuação se limitou à apresentação de emendas, sem controle sobre a execução dos contratos.

  • Ex-deputados como Eduardo Siqueira Campos e Valderez Castelo Branco destacaram que destinaram recursos apenas para atender famílias vulneráveis.

  • Assembleia Legislativa afirmou ter colaborado integralmente com o cumprimento dos mandados, mas não teve acesso aos autos.

  • Rérison Castro e Léo Barbosa negaram relação com as fraudes.

  • A defesa de Thiago Marcos Barbosa disse que houve equívoco, tratando-se de um homônimo.


Repercussões e próximos passos

O afastamento do governador gerou forte impacto político. Aliados tentam conter danos e a base governista na Assembleia está fragilizada. Enquanto isso, o interino Laurez Moreira busca garantir estabilidade administrativa.

No plano jurídico, o STJ deve avaliar nos próximos meses se mantém ou revisa as medidas cautelares. A investigação, no entanto, tende a avançar para uma fase de denúncias formais, o que pode resultar em ações penais contra os envolvidos.

No plano social, a revelação de que recursos destinados a combater a fome podem ter financiado uma pousada de luxo em Taquaruçu provocou indignação popular e desgastou ainda mais a imagem da classe política tocantinense.

“O Tocantins precisa virar essa página, mas não pode virar sem antes passar a limpo a forma como o dinheiro público foi tratado durante a maior crise sanitária da nossa história”, resume um procurador ouvido pela reportagem.

A Operação Fames-19 é mais do que uma investigação sobre contratos de cestas básicas. Trata-se de um caso emblemático que envolve corrupção, pandemia, desvio de recursos sociais, uso político de emendas parlamentares e suspeitas de lavagem de dinheiro.

Seu desfecho pode redefinir não apenas o futuro político de Wanderlei Barbosa, mas também o equilíbrio de forças no Tocantins, às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

Linha do Tempo da Operação Fames-19

📌 2020 – Início dos contratos de cestas básicas

  • Durante a pandemia da Covid-19, o governo do Tocantins anuncia a compra emergencial de 1,6 milhão de cestas básicas e a contratação de caminhões para transporte.

  • O valor global supera R$ 97 milhões.

  • Empresas recém-criadas são contratadas para fornecer os alimentos, muitas em nome de laranjas.


📌 2021 – Indícios de irregularidades

  • Auditorias internas e denúncias de órgãos de controle começam a apontar superfaturamento, entregas parciais e fraudes em licitação.

  • O governador Mauro Carlesse (Agir) é afastado do cargo em outra investigação, e o vice Wanderlei Barbosa assume o comando do Estado.


📌 2022 – Suspeitas de lavagem de dinheiro

  • A Polícia Federal identifica movimentações financeiras incompatíveis com a renda de investigados.

  • Relatórios de inteligência revelam aportes em espécie para a construção da Pousada Pedra Canga, em Taquaruçu, empreendimento ligado ao filho do governador, Rérison Castro.


📌 Junho de 2023 – Primeira fase da Operação Fames-19

  • A Polícia Federal deflagra a primeira fase da operação.

  • Mandados de busca e apreensão são cumpridos em Palmas e cidades do interior.

  • São recolhidos documentos, computadores e celulares que reforçam a tese de organização criminosa estruturada em núcleos político, empresarial, financeiro e de servidores públicos.


📌 2024 – Avanço das investigações

  • A PF amplia a apuração e identifica a participação de deputados estaduais e ex-deputados na destinação de emendas parlamentares para o programa de cestas básicas.

  • Novos relatórios de inteligência financeira confirmam repasses em espécie e movimentações suspeitas.


📌 3 de setembro de 2025 – Segunda fase da Operação

  • O STJ determina o afastamento do governador Wanderlei Barbosa e da primeira-dama Karynne Sotero por 180 dias.

  • São cumpridos mais de 50 mandados de busca e apreensão em gabinetes da Assembleia Legislativa, secretarias do governo e residências particulares.

  • Entre os alvos, estão 10 deputados estaduais em exercício e 7 ex-parlamentares.


📌 4 de setembro de 2025 – Repercussão imediata

  • O vice-governador Laurez Moreira (PSD) assume o comando do Estado interinamente.

  • Parlamentares e investigados divulgam notas de defesa, negando irregularidades.

  • O caso ganha repercussão nacional, sendo comparado a outros grandes escândalos de corrupção.


📌 Próximos passos

  • O STJ deverá avaliar em 2025 se mantém ou não as medidas cautelares.

  • O Ministério Público Federal prepara denúncias formais que podem resultar em ações penais contra governantes, deputados e empresários envolvidos.

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