Evento une sustentabilidade, tradição e protagonismo feminino em defesa da bioeconomia e da preservação ambiental no Tocantins
A produção da farinha de jatobá, fruto símbolo do Cerrado, voltou a reunir comunidades agroextrativistas em Caseara, durante a tradicional Farinhada de Jatobá do Cantão. A iniciativa, realizada neste mês de outubro, reforça a importância do aproveitamento sustentável dos frutos nativos como instrumento de proteção ambiental, fortalecimento comunitário e geração de renda no Tocantins.
O jatobá é reconhecido por seu alto valor nutricional, propriedades medicinais e pelo aproveitamento integral do fruto, cuja polpa é utilizada na produção de pães, bolos, biscoitos e vitaminas. O trabalho artesanal de beneficiamento é uma das expressões mais simbólicas da bioeconomia do Cerrado, que alia tradição, conhecimento local e sustentabilidade.
Saberes tradicionais e sustentabilidade
Entre os principais protagonistas da farinhada está José Batista, conhecido como Zé Meninim, referência no manejo do jatobá há mais de 20 anos na APA Jalapão. Ele conta que a colheita exige técnica e atenção ao tempo.
“Não pode tomar chuva no mato, porque a polpa incha e não vira farinha. É preciso colher e armazenar em local seco e arejado. Também é importante testar os frutos antes de colher para evitar desperdício”, explica o agroextrativista, que há anos compartilha seus conhecimentos com comunidades da região.
O processo de produção envolve várias etapas que unem técnica e coletividade: coleta segura, quebra do fruto, separação da polpa, peneiramento duplo e torra controlada, resultando em uma farinha fina, nutritiva e com aroma característico do Cerrado.
Protagonismo das mulheres e resistência no campo
A farinhada é também um espaço de fortalecimento das mulheres agroextrativistas, que preservam e transmitem práticas tradicionais fundamentais à conservação da sociobiodiversidade. No Assentamento Onalício Barros, em Caseara, o evento tornou-se símbolo de identidade e resistência.
“A farinhada é muito mais do que fazer farinha. É um momento de partilha, de reafirmação da nossa cultura e de fortalecimento das famílias que vivem do Cerrado”, afirma Ana Lúcia, liderança local e integrante da Associação Antônio Francisco Brasil (AAFB).
Ana Lúcia destaca que o fruto utilizado é coletado na APA Ilha do Bananal/Cantão e nos assentamentos vizinhos, com apoio da equipe técnica da APA. Segundo ela, a prática representa uma resposta concreta à expansão dos latifúndios e das monoculturas, reafirmando o compromisso das comunidades assentadas com a preservação ambiental e a autonomia camponesa.
Em 2025, a Farinhada de Jatobá reuniu mais de 100 participantes, entre assentados, agricultores familiares, indígenas, técnicos e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em um encontro que mesclou oficinas, rodas de conversa e trocas de experiências.
Uma rede pelo Cerrado em pé
A Farinhada de Jatobá integra as ações da Coalizão Vozes do Tocantins por Justiça Climática, rede que reúne organizações e comunidades comprometidas com a defesa do Cerrado e o fortalecimento da bioeconomia de base comunitária.
O evento é uma realização conjunta da Associação de Mulheres Agroextrativistas da APA Ilha do Bananal/Cantão (AMA Cantão) e do Projeto Bem Viver, em parceria com a AAFB, APA Ilha do Bananal/Cantão e Parque Estadual do Cantão (PEC). A iniciativa conta com apoio do WRI Brasil, Fundo Casa Socioambiental, ISPN e Fundo Ecos, com cofinanciamento da União Europeia e do Global Gateway.
A Farinhada de Jatobá reafirma o compromisso das comunidades tocantinenses com um modelo de desenvolvimento sustentável, baseado na valorização dos saberes tradicionais e na preservação do Cerrado em pé, um dos biomas mais ricos e ameaçados do país.







Deixe um comentário