O afastamento de Wanderlei Barbosa (Republicanos) do cargo de governador do Tocantins, determinado nesta quarta-feira (3) pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), reacendeu o debate sobre o impacto dos R$ 73 milhões que a Polícia Federal aponta como desviados em contratos de enfrentamento à Covid-19. Entre os contratos investigados pela operação Fames-19 está a compra de cestas básicas, cuja ausência teria deixado milhares de famílias em situação de insegurança alimentar.
Segundo o Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômico-Sociais (Naepe) do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), o preço médio da cesta básica em 2025 é de R$ 721,24. Nesse cenário, o valor suspeito de desvio poderia ser convertido em cerca de 101 mil cestas básicas. Considerando que cada cesta alimenta uma família de quatro pessoas por um mês, isso representa mais de 404 mil pessoas potencialmente atendidas.
O contraste é ainda maior diante do programa estadual recém-lançado, o AlimenTO, que prevê um auxílio de R$ 250 mensais para famílias em situação de vulnerabilidade. Atualmente, o programa atende cerca de 7 mil famílias em 139 municípios. Os R$ 73 milhões apontados pela PF poderiam financiar um auxílio alimentar equivalente a 14 vezes mais famílias do que o alcance atual da iniciativa oficial.
Quase um quarto da população do estado
Com uma população estimada em 1,6 milhão de habitantes, o Tocantins poderia ter garantido, apenas com esses recursos, a alimentação mensal de aproximadamente 25% da população.
Impacto ampliado pela pandemia
O efeito dos desvios pode ter sido ainda mais devastador, já que entre 2020 e 2021 — período investigado — o custo da cesta básica era menor, antes do impacto inflacionário dos últimos anos. Além disso, tratava-se justamente do auge da pandemia, quando a vulnerabilidade social estava em níveis críticos e milhares de famílias dependiam da assistência pública para garantir o mínimo necessário à sobrevivência.
A Polícia Federal afirma que os contratos de fornecimento de cestas básicas e frangos congelados teriam sido superfaturados, e que os valores desviados foram ocultados em empreendimentos de luxo, compra de gado e despesas pessoais.
Até o momento, nenhuma irregularidade foi confirmada pela Justiça, e o processo segue em segredo de Justiça, com as investigações em andamento.




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