A representante do Tocantins no Miss Brasil Mundo 2026, Tainá Marrirú Karajá, chega à etapa nacional levando ao palco uma trajetória que ultrapassa os limites dos concursos de beleza. Aos 25 anos, a educadora física e pesquisadora indígena atua diretamente em aldeias da Ilha do Bananal, com iniciativas voltadas à promoção da saúde mental e à prevenção do suicídio entre crianças e jovens indígenas. A 64ª edição do concurso será realizada no sábado (31), em Brasília.
Formada em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Tainá também atuou como pesquisadora no Distrito Sanitário Especial Indígena Tocantins (DSEI/TO). Embora tenha nascido e crescido em São Paulo, a candidata afirma que sua formação acadêmica sempre teve como objetivo o retorno ao Tocantins para contribuir com a comunidade materna, na aldeia Santa Isabel, território Karajá.
A relação com concursos de beleza começou cedo, aos 16 anos, e se consolidou ao longo dos anos com títulos estaduais e participações em disputas nacionais e internacionais. Com o avanço na carreira, Tainá percebeu a baixa representatividade indígena nesses espaços e passou a encarar a presença nos concursos como um ato político e simbólico. “Entendi que ocupar esses lugares também é uma forma de abrir caminhos”, resume.
A escolha pelo Miss Brasil Mundo não foi aleatória. A franquia adota o lema “Beleza com Propósito”, que exige das candidatas envolvimento social concreto e atuação em causas coletivas. Para Tainá, a proposta dialoga diretamente com o trabalho que já realizava antes mesmo da competição.
Dessa vivência nasceu o Projeto Ahandú, iniciativa voltada à promoção da saúde mental e física de crianças e jovens indígenas por meio do esporte, da educação física e da integração com ações de saúde. O projeto surgiu a partir da observação das dificuldades enfrentadas nas aldeias e da necessidade de estratégias preventivas diante de um cenário preocupante.
Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2023, a taxa de suicídio entre pessoas indígenas chegou a 18,2 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional. Para Tainá, o enfrentamento do problema passa por ações contínuas de fortalecimento comunitário. Ela defende que práticas corporais, quando associadas a equipes multidisciplinares, contribuem para o pertencimento, a escuta e o cuidado coletivo.
O Projeto Ahandú atua com oficinas, atividades físicas e rodas de conversa, principalmente na Ilha do Bananal, e vem sendo ampliado para outras localidades. A iniciativa também carrega um aspecto afetivo: foi criada em memória do pai de Tainá, conhecido pelo envolvimento em ações sociais, influência que marcou sua atuação desde a adolescência.
A preparação para o Miss Brasil Mundo inclui acompanhamento em comunicação, oratória e saúde mental, além da parte estética. Consciente da visibilidade do concurso, Tainá destaca a responsabilidade de representar o Tocantins e o povo Karajá em nível nacional, em um espaço que historicamente pouco refletiu a diversidade indígena do país.
Independentemente do resultado da competição — que pode levar a vencedora ao Miss World, etapa internacional da franquia — Tainá afirma que seguirá dedicada ao trabalho comunitário. “Mais do que um título, o que importa é que outras meninas indígenas se vejam possíveis”, afirma, ao reforçar que sua participação no concurso é, acima de tudo, um instrumento para dar visibilidade a causas urgentes e vidas que precisam ser protegidas.




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