Sete meses após o trágico desabamento da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Aguiarnópolis (TO) a Estreito (MA), um laudo técnico da Polícia Federal confirmou que o colapso estrutural era previsível e poderia ter sido evitado. O relatório, concluído recentemente, aponta como causa principal a deformação progressiva no vão central da ponte, agravada pelo excesso de peso de caminhões, além da omissão das autoridades responsáveis pela manutenção da estrutura.
A tragédia ocorreu em 22 de dezembro de 2024, na véspera do Natal, e resultou na morte de 14 pessoas. Das 18 que estavam sobre a ponte no momento da queda, apenas uma sobreviveu. O desabamento mobilizou o país e expôs falhas graves na gestão da infraestrutura viária.
Segundo o laudo da PF, alertas sobre a condição precária da ponte estavam documentados desde 2020. Relatórios técnicos apontavam vibrações excessivas, rebaixamento acentuado no vão central e sinais evidentes de desgaste estrutural. No entanto, nenhuma reforma significativa foi realizada. A última grande intervenção havia ocorrido entre 1998 e 2000.
Durante as investigações, os peritos federais usaram drones, escâneres 3D e modelagem digital para reconstituir os segundos finais antes da tragédia. O vão central desabou em menos de um segundo, e toda a estrutura veio abaixo em apenas 15 segundos. Um dos reforços laterais instalados décadas atrás se soltou com facilidade, sendo comparado no relatório a uma “fita crepe”.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) tentou licitar uma reforma em 2024, mas nenhuma empresa demonstrou interesse. Uma nova licitação seria lançada em breve, porém veio tarde demais. No mesmo ano, o superintendente do DNIT no Tocantins, Renan Bezerra de Melo Pereira, foi exonerado. Em nota, ele alegou ter permanecido no cargo por pouco mais de um ano e negou qualquer responsabilidade pela tragédia. O DNIT informou que o caso está sob análise da corregedoria do órgão.
Para o delegado da PF, Allan Reis de Almeida, a tragédia poderia ter sido evitada:
“Era um risco conhecido, plausível e evitável. O inquérito agora se concentra na apuração da responsabilidade técnica e administrativa de todos os envolvidos”.
A ponte Juscelino Kubitschek foi construída na década de 1960 e foi uma das pioneiras no uso do concreto protendido para grandes vãos no Brasil. Com o aumento do tráfego de veículos pesados ao longo das décadas, a estrutura tornou-se obsoleta, sem ter passado por uma reestruturação completa.
Após o desastre, os escombros da ponte foram implodidos em fevereiro de 2025. No local, uma nova ponte está em construção, com 630 metros de extensão e um vão central de 154 metros. A obra está orçada em R$ 171 milhões e deve ser concluída até o fim do ano. Enquanto isso, a travessia entre Tocantins e Maranhão é feita por balsas, gerando longas filas e transtornos à população local e aos caminhoneiros que trafegam pela BR-226.
A tragédia escancarou a urgência da manutenção preventiva na malha rodoviária federal e acendeu um alerta nacional para outras pontes e viadutos em condições semelhantes de risco estrutural. A responsabilização criminal de autoridades e técnicos envolvidos no caso ainda está sendo avaliada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.




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