Investigação aponta que cinco dos seis mortos não possuíam antecedentes criminais nem relação com assassinato de policial militar ocorrido em 2022
A Polícia Civil do Tocantins afirmou nesta sexta-feira (8), durante coletiva de imprensa, que apenas uma das seis pessoas mortas nos episódios conhecidos como Chacina de Miracema tinha envolvimento direto com a morte do 2º sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa, assassinato registrado em fevereiro de 2022.
A declaração ocorreu após a deflagração da operação que cumpriu 22 mandados de prisão preventiva contra policiais militares investigados pelos crimes. Segundo a corporação, um 23º mandado ainda deverá ser cumprido.
De acordo com o inquérito conduzido pela Delegacia Estadual de Repressão ao Crime Organizado (Dracco), apenas Valbiano Alves Marinho possuía antecedentes criminais e era apontado como suspeito de atirar contra o sargento Anamon.
As demais vítimas — Manoel Soares da Silva, Edson Marinho da Silva, Aprígio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho — não tinham relação com o homicídio do policial militar, segundo a investigação.
“Todas as demais vítimas não tinham antecedentes criminais e não possuíam ligação com o homicídio do sargento Anamon”, afirmou o delegado Afonso Lyra.
Morte de sargento desencadeou sequência de crimes
Segundo a investigação, os fatos começaram após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, ocorrida na noite de 4 de fevereiro de 2022, no setor Saltinho, em Miracema do Tocantins.
Conforme os levantamentos, policiais militares realizavam diligências em uma área considerada crítica quando foram alvo de disparos de arma de fogo.
A Polícia Civil aponta que Valbiano Alves Marinho seria o autor dos tiros que mataram o sargento. Horas depois, ele próprio foi morto em frente à residência da família.
Segundo o delegado Afonso Lyra, a investigação concluiu que Valbiano já estava rendido e desarmado no momento em que foi executado.
“Conseguimos comprovar que ele estava sendo custodiado por equipes no momento em que foi executado”, afirmou.
Os policiais responsáveis pela custódia foram indiciados por homicídio qualificado, e o corpo de Valbiano chegou a ser exumado para novas perícias.
Delegacia foi invadida durante a madrugada
Na madrugada de 5 de fevereiro de 2022, um grupo encapuzado invadiu a Delegacia da Polícia Civil de Miracema e matou Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano.
Conforme a investigação, 16 policiais militares teriam participado da ação.
Três servidores da Secretaria da Segurança Pública foram rendidos durante a invasão, incluindo dois policiais civis.
“A delegacia é um ambiente em que o cidadão precisa se sentir seguro. A invasão representou uma ruptura momentânea do Estado de Direito”, declarou o delegado.
A Polícia Civil afirma possuir provas técnicas que sustentam a participação dos investigados nas mortes ocorridas dentro da unidade policial.
Jovens foram sequestrados e executados
Ainda durante a mesma madrugada, Aprígio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho foram mortos em uma área do loteamento Jardim Buritis.
Segundo a investigação, os jovens estavam em uma festa em um posto de combustíveis e não possuíam qualquer relação com a morte do sargento Anamon.
A Polícia Civil aponta que eles foram sequestrados, agredidos e executados. Um quarto jovem conseguiu sobreviver.
“Esses jovens foram abordados, submetidos a agressões físicas e verbais, levados para diversos pontos da cidade e depois executados”, relatou o delegado Afonso Lyra.
O sobrevivente prestou depoimento ainda no hospital de Miracema, e o relato foi considerado decisivo para o avanço das investigações.
Investigação aponta destruição de provas
Durante a coletiva, a Polícia Civil revelou que HDs de sistemas de monitoramento próximos ao local onde os jovens estavam foram retirados e destruídos após os crimes.
“Foi simulado o furto desses HDs de dentro de uma viatura da Polícia Militar”, afirmou Afonso Lyra.
Segundo os investigadores, a supressão de provas foi um dos principais obstáculos enfrentados ao longo dos mais de quatro anos de investigação.
O relatório final do inquérito foi concluído em novembro de 2025 e encaminhado ao Ministério Público do Tocantins e ao Poder Judiciário.
O Ministério Público já apresentou denúncia à Justiça.
Polícia Civil diz que investigação não teve como alvo a PM
Durante a coletiva, os delegados reforçaram que a investigação não teve como alvo a Polícia Militar do Tocantins enquanto instituição, mas policiais suspeitos de desvios individuais.
“Não investigamos a instituição Polícia Militar. Investigamos fatos praticados por pessoas”, afirmou o delegado-geral Claudemir Luiz Ferreira.
Questionado sobre eventual participação de oficiais superiores, o delegado Afonso Lyra afirmou que não foram encontrados elementos que apontassem envolvimento da estrutura de comando da corporação.
“Se tivessem sido identificados, estariam sendo presos hoje”, declarou.
A Polícia Civil confirmou ainda que veículos oficiais foram utilizados nas ações investigadas e afirmou que alguns dos investigados possuem participação comprovada em mais de um dos episódios apurados.
O que disse a Polícia Militar
Em nota, a Polícia Militar do Tocantins informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da corporação e afirmou prestar apoio institucional ao cumprimento das decisões judiciais e às autoridades responsáveis pela investigação.
A corporação declarou ainda que não compactua com desvios de conduta praticados por integrantes da instituição e reafirmou compromisso com a legalidade, ética, disciplina e transparência institucional.
Segundo a PMTO, os investigados terão garantidos o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, conforme prevê a legislação brasileira.




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